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Pedra Portuguesa

Pedra Portuguesa
Pelo Dr. Clarence V.H. Maxwell

Em 1543, o escritor Gonzalo Fernandes de Ovido e Valdes, autor dos livros “Historia General e Natural de las Índias”, entrevistou alguns portugueses em Porto Rico. De acordo com o Professor Quinn, que mencionou este incidente no seu artigo no “Bermuda Journal of Archaeology and Maritime History” em 1989, eles faziam parte da tripulação de um navio “… português traficante de escravos de volta à Europa em 1543…”, que encalhou nos recifes.
Os seus homens, incluindo um valioso carpinteiro e as suas ferramentas, continua a descrever Quinn, “chegaram  à costa, tendo salvado muitos dos seus materiais e alguns alimentos e iniciaram a construção de uma lancha, apoiando-se, parcialmente, em grandes tartarugas”. O único nome relacionado com este evento é o do piloto Amador Gonzavez que os tinha avisado dos perigos dos recifes ao chegarem às Bermudas.
Aparentemente, eles permaneceram nas Bermudas até ao Outono, voltando para Porto Rico, em 2 de Novembro de 1543. Através de pesquisas posteriores efectuadas pelo Professor Quinn, e outros, esta narrativa está relacionada com uma pedra isolada numa rocha sobre o mar, localizada em Spittal Pond, onde, em principio, pensaram que as iniciais nela inscritas eram T.F. e 1543.
Durante muito tempo foi-se desenvolvendo a tradição do nome “Pedra Espanhola”, associando-a assim, não aos portugueses  mas aos espanhóis. Vários candidatos surgiram na historia para  a atribuição deste nome espanhol, tendo-se destacado entre eles, mais notavelmente,  Hernando Camelo, um português a quem em 1527, lhe foi concedida, pelo Santo Emperador Romano, D. Carlos V, uma comissão para governar a colonização espanhola na Ilha. Nada resultou desta resolução. Outro candidato foi o Capitão Bartolomé Carreño, que chegou às Bermudas em 1538, onde permaneceu durante 25 dias. Embora ele enviasse relatórios para Espanha sobre o valor da Ilha, também nada de positivo resultou, para alem dos seus estudos.
Perante estes factos, não é de surpreender o descontentamento crescente com a ligação Espanhola, bem como do seu significado. Desde 1855, parte dos relatórios não publicados, escritos por Oviedo, de viagens pelas Américas, foram finalmente imprimidos e, a partir desta data, existe a evidencia de marinheiros nas Bermudas desde 1543. A historiadora, Terry Tucker, rejeita a ligação da pedra com a infeliz aventura de Hernando Camelo e, no seu artigo publicado no “Bermuda Historical Quarterly”, a ligação do cidadão espanhol, J. Vidago, com a “Pedra Espanhola” ao evento descrito pelo escritor Ovido. Ela vai mais longe descrevendo a reinterpretação de Vidago relativamente à inscrição na pedra,  que não era T.F., mas sim R.P., significando Rex Portugaliae, uma expressão em latim que corresponde  “Rei de Portugal”.  O Professor Quinn apoiou a teoria de Terry Tucker, citando o encontro entre Oviedo e os marinheiros portugueses em Porto Rico. Igualmente, Jonatham Bream, apoiou esta tese, citando as palavras de Oviedo  “bateu contra os recifes sem grande profundidade a norte das Bermudas” antes de ser encalhado. Estes incidentes coincidem com a data mencionada na pedra e com a associação epigráfica ao Monarca Português.
Assim, a “Pedra Espanhola” é certamente uma “Pedra Portuguesa”, e  um monumento aos corajosos portugueses reclamando a sua presença na Ilha, e,  desta forma, ligando  as Bermudas com a longa tradição dos marinheiros Portugueses e a sua actividade comercial que deu origem à construção  de um Mundo Atlântico Moderno, décadas antes da chegada de Cristóvão Colombo às Américas.
A chegada da “Golden Rules”, em 1849, é apenas uma data  na longa cronologia da associação das Bermudas com os Portugueses.
A alteração  do nome de Pedra Espanhola para Pedra Portuguesa, confere o respeito  e o crédito àqueles a quem é devido.

Fontes históricas:
- Edward C. Harris, “Heritage Matters”, Mid Ocean News, July 9, 2009
- Terry Tucker, “Portuguese Epigraphy in Bermuda, 154, por J. Vidago”, Bermuda Historical Quarterly. Vol. 19. no. 2 (Verão 1962) pgs.53-6m
- David B. Quinn, “Bermuda in the Age of Exploration and Early Settlement”, Bermuda Journal of Archaology and Maritime History”, vol. 1 (1989)
- Jonathan W. Bream, “The Spanish Influence on Bermuda”, Bermuda Journal of Archaeology and Maritime History, vol. 2 (1990)
- Gonzalo Fernandez de Oviedo y Valdês, Historia General y natural de las Índias (1855).